quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Pra boi dormir - Parte I

Diziam que eu era simples. Minha mulher pesava o dobro do meu singelo peso, o que me deixava constantemente puto da vida. Nataline era - ou é - o seu nome. Não importa, ela só está nesse conto para fazer com que o caro leitor entenda como a nossa vida muda. Eu, que aqui vos falo, garanto isso com todas as palavras da minha curta juventude.

Sem mais delongas, peço-lhes, meus caros, a gentileza de entenderem minhas futuras fragmentações. A memória, já naqueles dias, era devorada junto com os meus ontens e antes por um ser qualquer que não cheguei a conhecer. Ser que minhas aventuras amamentaram, engrandeceram e enraizaram nesse cérebro cansado. As pequenas migalhas que caíam da sua boca infalível são apenas fragmentos. Com vossa licença.

Diziam que eu era simples. Simples como a sombra. Estava lá. O interessante é que não ligava. Coisa incomum para as pessoas da minha idade. Dezesseis anos e os escrúpulos começavam a sumir, devagar, bem devagar. Mas quem quer escrúpulos? - devia ter me perguntado há décadas. Acontece que moleque só escuta, abre a boca pra falar coisas sem sentido, murmurar. Que época mais banho-maria do cacete.

Em São Paulo as noites sempre me deram um falso medo. Morava em frente ao Clube Italiano e seus barulhos noturnos incomodavam até o senhor meu Pai da família. Ele, que há tanto tempo louvava os dias cômodos na piscina do amado lugar e andava reluzente distribuindo sorrisos acharutados nos restaurantes à la carte, agora xingava e se contorcia todo ao citar as noites mal-dormidas. Ah senhores, não eram as noites que o incomodavam, isso não; eram os dias.

A família ensina muito, mas é na ausência dela que a gente deve pôr todas as teorias em prática, e é então que a coisa se torna linda, intensa e aterrorizante. As pessoas que considerava família me davam constantes choques de loucura. Enxergar um palmo à frente era praticamente um sacrifício dentro daquela casa aveludada. Todos se sentiam maravilhosamente bem com a inércia e a apatia básica que circunda o meio familiar burguês e abastado. Mas isso ainda será tratado adequadamente no decorrer de novas inquietações.

Voltando à questão da insatisfação corriqueira de meu pai, na época Senhor Doutor Federico Magari, me sinto compelido a descrever os outros parasitas que viviam de seu sagrado dinheiro, além do pobre narrador. Senhora Magari, minha mãe, era estúpida demais para haver nascido no meio de gente pobre, que precisa de cérebro pra comer, e, por isso, o Poderoso a colocou no berço de meus avós, donos de metade do Estado. Grande coisa - sem ironia. Bem, devo apresentar-lhes também meu irmão Piero. Minha grande aposta e desilusão. Astuto e incapaz. Fez tudo dentro dos conformes, quando poderia ter dado conformidade a tudo.

Aos meus dezesseis anos o ambiente quadrístico que fantasiava nossa casa começava a deslizar. A base, Doutor Federico, rachava e cedia, dia após dia. Nós, tradicionais burgueses, nos arrastávamos em batidas lentas rumo a degraus inferiores na escada social.

E foi assim, batalha travada, batalha perdida. Os dois anos que perfuraram minha mente preguiçosa devem a sua existência a uma simples falta de grana. É certo que os anos existiriam, mas não estes. Fatos? Acontecimentos? Nada. Esperei, inconscientemente, um acúmulo de raiva e vontades que, no momento em que pude respirar, já era outro, nascia de novo. Querer lembrar destes dois anos seria pretensão demais. Apego-me aos instantes seguintes, que deram cabo de um jovem em busca de ar, esgotado pelo nado, aparentemente infinito, no oceano de detalhes que o mundo lhe parecia esconder.

Meus caros leitores, vocês devem estar se perguntando qual a hombridade de vosso humilde narrador para poder apontar não dedos, mas mãos e mãos de imperfeições ao seu pequeno mundo. Pois bem, digo-lhes honestamente que meu mundo, um dia, não foi pequeno. Explosões de êxito e prazer já correram em minhas veias no mesmo instante em que chorava forte de dor contida. Eu passei, irmãos, passei o limite das palavras. Entendam, apenas passei por um mundo pequeno - isso sim -, algo que garanto com todas as palavras da minha curta juventude.

O que estaria eu fazendo aqui!?

Estou inerciando. Chega dessa vida desverbada
Nada propõem, levando ao nada
Me dõem as pernas, me aflige a mente
Propomos luta, ação. Ninguém consente
Alienamos nossas vontades e as desprezamos
Sentamos calados. Servos sem amos

São sempre eles que aniquilam
Qualquer tropeço, nos desanimam
Qual professor ao alunado,
Sonham com o cargo de Rei do gado
Por isso, futuros comparsas
Esqueçam seus cursos, sonoras farsas!

sábado, 28 de junho de 2008

Extraordinária

Sinto que a alma acalma, o coração respira, os pensamentos descansam.

Entrei flutuante no vácuo contínuo do que é amar.

Passou a visitar meus sonos, meus sonhos; chego a confundir onde tem fim.

Enrosco-me em pontas-duplas, que adoro – porque não duplicar?

Perco as razoes da estética, paradigma dos homens. Dissipou-se a estranha necessidade de julgar.

Hoje arrisco, vou pra cima. Sei que nosso amor é fogo.

O dia é imprescindível. Interrompo a rotina – a não ser pelo nosso diário e incansável ócio-reprodutivo.

Desconhecemos a politicagem do amor, excessos da mentira, névoas da incerteza.

A pureza, sempre pureza.

Sem o saudosismo dos outrora amados, damos firmes passos rumo ao eterno prazer do para sempre amor.

Minhas

Damas de honra
Companheiras dos labirintos
Madrinhas dos caminhos
Mães do destino

(i)Responsável

Quem (foi que) disse que a vida é pura tragédia?

Ainda mais surpreendente, quem é o responsável por dizer que a vida é pura comédia?
Respirem, apazigúem-se meus caros. Antes de tudo, o fundamentalismo do oxigênio.

Esse é um grande tema para a razão. Análises e mais análises. Então, onde está nosso Jesus Cristo? Quero meu peixe! Morro de fome, mas, respiro.

A calma, pela calma, pela fauna, pela alma, pelo Zé.

Explosões sentimentais. Isso! É isso que leva um a pensar que é pura tragédia e outro, não menos inconsequente, que é pura comédia.

Dê-me o milagre ou escolherei o Barreiro! Um brinde à vida ucrônica, cínica, tragicômica.

Sabê-lo

Sim, como é bom saber o que quero.

Agora sei que mergulhei de cabeça na piscina alcoólica e lúgubre da inércia corporativa do nosso previsível futuro papai-mamãe.

Posso sentar-me libidinosamente em poltronas imaginárias, as quais insistem em me engolir da maneira mais aveludada possível.

Caem ninhadas de filhotes-filhos e posso prever a minha indiferença quanto à rotina e aos Karlos de minha vida.

Sem mais, desisto. Quero paz, conforto. Rendo-me a políticos corruptos – ou políticos – e a todos os domingos de futebol – ou circo, ou pão.

Empurro com a barriga, mais precisamente, com meu imenso umbigo, todo e qualquer pensamento guevarista desse meu planificado caminho.

Essas certezas limpam a alma. Piso em todas as minhas dúvidas. As enterro. O trabalho de podar possíveis ramos e raízes, deixo para o grande irmão. Que grande amigo!Fácil será morrer na cama, sem remorso, sem saber.